A integração regional no Sul Global tem sido um tema relevante nas últimas décadas, especialmente quando se analisa o papel desempenhado por governos progressistas como o Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil, o Congresso Nacional Africano (CNA) sob Thabo Mbeki na África do Sul e o Congresso Nacional Indiano (INC) na Índia. Esses governos buscaram promover projetos de internacionalização de setores capitalistas, ao mesmo tempo em que se engajaram em iniciativas de integração regional em seus respectivos entornos geográficos imediatos.
Durante o período de 2003 a 2016, sob as gestões do PT no Brasil, houve uma clara estratégia de projeção política por meio da integração regional. O governo brasileiro priorizou a América Latina como uma área de interesse estratégico, buscando consolidar uma posição de liderança política e econômica na região. O principal instrumento utilizado nesse processo foi o Mercado Comum do Sul (Mercosul), que passou por uma série de avanços e aprofundamentos durante esse período.
Setores econômicos-chave no Brasil interessados na integração regional incluíam a indústria automobilística, o agronegócio e as empresas de construção civil. Esses setores buscaram ampliar seu acesso aos mercados regionais e utilizar a integração como uma estratégia para aumentar suas exportações e expandir seus negócios. O Estado nacional brasileiro desempenhou um papel importante ao respaldar esses interesses, adotando medidas de apoio e incentivos, além de promover a cooperação política com outros países da região.
No entanto, é importante ressaltar que a estratégia brasileira sob as gestões petistas apresenta singularidades em relação às abordagens adotadas pela África do Sul e pela Índia. Enquanto o Brasil buscou consolidar uma liderança regional por meio do Mercosul, a África do Sul e a Índia adotaram estratégias diferentes.
Sob a administração do CNA e Thabo Mbeki entre 1999 e 2009, a África do Sul se concentrou em questões regionais relacionadas à paz, segurança e desenvolvimento econômico na região da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC). A África do Sul, como uma das maiores economias da região, buscou desempenhar um papel de liderança em iniciativas regionais, promovendo a cooperação política e econômica entre os países membros.
Na Índia, durante as administrações do INC entre 2004 e 2014, a ênfase estava em fortalecer os laços com seus vizinhos imediatos e no desenvolvimento de uma política externa mais ativa. Embora não tenha havido uma integração regional formal similar ao Mercosul, a Índia buscou estreitar os laços comerciais e políticos com países como Bangladesh, Nepal, Sri Lanka e Mianmar, visando aprofundar a cooperação regional em diversos setores econômicos.
Embora os três governos tenham compartilhado objetivos comparáveis de política regional, visando consolidar sua posição de liderança política por meio da projeção econômica, é possível identificar diferenças nas estratégias adotadas. No caso do Brasil, a integração regional foi centralizada no Mercosul e teve um enfoque mais abrangente em termos de setores econômicos envolvidos. A África do Sul e a Índia, por outro lado, adotaram abordagens mais focalizadas em suas regiões imediatas e setores específicos.
A singularidade da estratégia brasileira sob as gestões petistas pode ser atribuída a considerações de natureza histórica, política e econômica. O Brasil possui uma longa tradição de engajamento na América Latina, com uma história compartilhada e laços culturais e econômicos significativos. Além disso, as gestões petistas buscaram promover uma política externa mais independente e diversificar as parcerias internacionais do país, buscando uma maior autonomia em relação aos Estados Unidos e uma posição de destaque em fóruns internacionais.
Em conclusão, a análise comparada entre Brasil, África do Sul e Índia durante os períodos mencionados evidencia a integração regional como parte de uma estratégia de projeção política. Embora os três governos tivessem objetivos semelhantes, o Brasil se destaca pela singularidade de sua estratégia, baseada em considerações históricas, políticas e econômicas específicas. A integração regional foi impulsionada por setores econômicos-chave, respaldados pelo Estado nacional, e demonstrou uma intencionalidade política clara na busca por uma posição de liderança regional.
Além das diferenças nas estratégias de integração regional adotadas pelos governos do Brasil, África do Sul e Índia, é importante examinar o contexto político e econômico em que essas estratégias foram implementadas.
No caso do Brasil, as gestões do PT entre 2003 e 2016 foram marcadas por um momento de relativa estabilidade política e econômica, impulsionado pelo boom das commodities e pelo aumento do consumo interno. Isso permitiu ao governo brasileiro buscar uma maior projeção política e econômica na América Latina, especialmente por meio do Mercosul.
Através do Mercosul, o Brasil buscou estabelecer acordos comerciais e promover a cooperação política com países vizinhos, como Argentina, Uruguai e Paraguai. Setores econômicos como a indústria automobilística e o agronegócio foram beneficiados com a abertura de novos mercados na região, impulsionando as exportações brasileiras.
No entanto, é importante destacar que a estratégia brasileira de integração regional enfrentou desafios e limitações. O Mercosul enfrentou dificuldades para avançar em sua agenda de integração, devido a divergências entre os países membros em relação a questões como tarifas comerciais, políticas agrícolas e assimetrias econômicas. Além disso, o Brasil também enfrentou críticas em relação a suas políticas comerciais, especialmente por parte de países como Argentina e Uruguai, que argumentaram que o país adotava medidas protecionistas em determinados setores.
Na África do Sul, durante as administrações do CNA sob Thabo Mbeki entre 1999 e 2009, a integração regional foi impulsionada por uma agenda mais ampla de paz, segurança e desenvolvimento econômico na região da SADC. A África do Sul buscou desempenhar um papel de liderança nesses assuntos, promovendo a cooperação política e econômica entre os países membros da organização.
No entanto, a África do Sul também enfrentou desafios na implementação de sua estratégia de integração regional. Questões como a instabilidade política em alguns países da região, os desafios econômicos enfrentados por países mais frágeis e a concorrência com outras potências regionais, como a Nigéria, limitaram o alcance e o impacto das iniciativas sul-africanas.
Na Índia, durante as administrações do INC entre 2004 e 2014, houve uma ênfase em fortalecer os laços com os países vizinhos, especialmente no Sul da Ásia. A Índia buscou expandir sua influência política e econômica na região, estreitando laços comerciais e promovendo a cooperação em setores como energia, transporte e tecnologia.
No entanto, a Índia também enfrentou desafios em sua busca pela integração regional. Questões como conflitos territoriais com países vizinhos, como o Paquistão, e preocupações sobre o impacto do crescimento econômico indiano nas economias menores da região foram obstáculos para uma integração mais profunda.
Apesar das diferenças e desafios enfrentados pelos governos do Brasil, África do Sul e Índia em suas estratégias de integração regional, é possível identificar uma intencionalidade política em apoiar os negócios relacionados à internacionalização dos setores capitalistas. Esses governos buscaram promover o crescimento econômico, a expansão dos mercados e a consolidação de suas posições de liderança política por meio da integração regional.
No entanto, é importante ressaltar que a efetividade dessas estratégias pode ser avaliada de maneira diferente, levando em consideração os resultados alcançados, a sustentabilidade das iniciativas e o impacto nas economias e sociedades dos países envolvidos. Além disso, é necessário considerar outros fatores que influenciam a integração regional, como dinâmicas geopolíticas, interesses divergentes entre os países e a interação com atores externos.
Em suma, a análise comparada entre Brasil, África do Sul e Índia durante os períodos mencionados destaca a importância da integração regional no Sul Global como parte de uma estratégia de projeção política e econômica. Embora os governos tenham compartilhado objetivos semelhantes, as abordagens adotadas e os resultados alcançados foram influenciados por considerações históricas, políticas e econômicas específicas a cada país.
Por Robson Weszak
10 de julho de 2023





